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sábado, 31 de maio de 2008

Até quando teremos esse corpo?

A máquina, o ser, aquilo

O processo evolutivo que hoje nos ameaça o corpo pode ter sido introduzido em nossa sociedade a quando começamos a usar próteses para corrigir certos defeitos, como acredita a doutoranda Claudia Benedetto. Passamos a aceitar a idéia de sermos um pouco máquina.

A inserção de próteses não pode ser considerada uma prática eugênica em si, porque é feita no já indivíduo formado. Mas Benedetto supõe que “teremos este tipo de questão ética em um futuro próximo, quando a tecnologia molecular permitir alterações específicas diretamente no genoma dos indivíduos”.

Neste sentido, o professor Roger Dutra lembra que “Paul Virilio argumenta que quando começamos a pensar na possibilidade de dotar de próteses indivíduos que realmente não precisam delas [...] rompe‑se o fino limiar que separa a correção de uma dificuldade da modificação hedonista e despropositada”.

Nos acostumamos ao controle cada vez mais eficiente da evolução da nossa espécie. Ainda assim, não é possível dizermos se a possibilidade de extinção do corpo se concretizará. Mas hoje em dia vislumbram-se algumas delas. Dos casamentos entre “superiores” às pesquisas com células-tronco, trilhamos um caminho do qual dificilmente conseguiremos desviar-nos. E, por isso mesmo, é crucial que percebamos que “a situação contemporânea nos impele a abrir publicamente esse debate”, ressalta Dutra.

O que define o comportamento do homem contemporâneo é a arrogância na aplicação de tecnologias para ostentação de poder. Na opinião de Dutra, “a genética é, atualmente, mais uma forma de tecnociência do que uma representante do tempo idílico e quase-nostálgico em que era possível acreditar nas ciências puras e desinteressadas”.

“Não temos o mínimo de segurança tecnocientífica. Nem sequer acumulamos debates sociais, filosóficos ou morais minimamente satisfatórios que nos permitam empreender as graves intervenções a que estamos atualmente dispostos”, detalha Dutra. Já para Benedetto, “a sociedade deve mudar o enfoque” e “isto inclui aceitar a diversidade humana como um fato intrínseco”.

São várias vertentes e várias vozes clamando que o futuro precisa ser revisto. Na opinião da doutora Heloísa Pena, “a manipulação genética da espécie humana levanta questões éticas inéditas, pois o que está em jogo é a própria natureza e imagem do homem. A prudência e o raciocínio hipotético são fundamentais nesta ‘co-evolução entre ciência e ética’. Acho que são questões que devem ser discutidas pela comunidade global”.


sexta-feira, 30 de maio de 2008

Até quando teremos esse corpo?


“Mas que é o corpo?

Meu corpo feito de carne e de osso. Esse osso que não vejo, maxilares, costelas, flexível armação que me sustenta no espaço

que não me deixa desabar como um saco, vazio, que guarda as vísceras todas funcionando (...)”. Ferreira Gullar

O corpo que conhecemos é um corpo orgânico, findo. E, acima de tudo, sensível ao mundo exterior, mas que internamente carrega em si sua origem, uma herança genética determinante. Será este o único corpo que conheceremos?

Surge desta pergunta uma dúvida desconfortável e não uma certeza categórica. “Gosto tanto do meu corpo como qualquer um, mas, se eu pudesse viver 200 anos com um corpo de silicone, eu o faria”, afirma Danny Hills, inventor, cientista, engenheiro, editor de jornais científicos e um dos fundadores da Corporação das Máquinas Inteligentes - um grupo de consultoria na área que tinha entre seus clientes a Schlumberger, American Express e a NASA.

Em um artigo intitulado “Por que o futuro não precisa de nós?” – no qual cita a declaração controversa de Hills, Bill Joy, também cientista da área, faz questionamentos sobre o futuro da espécie e da própria existência ontológica do ser humano diante de previsões como a transferência de nossas consciências para a estrutura do que poderia ser um robô. O corpo orgânico seria um elemento obsoleto e substituível por outro que fosse capaz de eternizar a espécie na Terra.

A questão suscita discussões polêmicas que introduzem questionamentos do tipo: o que faz de nós seres humanos? A consciência, encarada aqui como uma dimensão metafísica, dispensa a complementaridade do corpo orgânico? Dispensá-lo faz com que deixemos de ser humanos?

Para Roger Dutra, professor do Departamento de História da Universidade Federal de Minas Gerais e com tese de doutorado no assunto, o mais preocupante é “a externalização e a mobilização de recursos na direção da criação ou, melhor dizendo, na possibilidade da criação desta eternização”.

O professor alerta que o problema “hoje é que há um conjunto de potenciais ações tecnocientíficas das quais sabemos toscamente como realizá‑las e nem ao menos tangenciamos o seu significado e a extensão de suas implicações”. Além de questões históricas, filosóficas e éticas advindas da onipresença das novas tecnologias nas nossas vidas, tratar de uma evolução, transformação ou até extinção do corpo humano requer uma discussão potencializada há mais de um século.

[continua no próximo post]